24.3.11
Entrevista com a coreógrafa Sônia Mota
Fotos: Paulo Lacerda
Sônia Mota nasceu em São Paulo, formou-se aos 16 anos em Ballet Clássico e mais tarde se especializou em dança moderna. Na sua trajetória recebeu vários prêmios como melhor bailarina e coreógrafa. Dirigiu o espetáculo 22 segredos, que foi indicado ao prêmio SESC / SATED - 2010 em quatro categorias. Depois de morar um bom tempo na Alemanha, Sônia Mota retorna ao Brasil e agora assume o posto de Diretora da Cia. de Dança do Palácio das Artes.
Por: Yany Mabel
1) Na 15ª edição do Prêmio SESC / SATED, a Cia. de Dança Palácio das Artes concorreu em quatro categorias: melhor espetáculo, com 22 segredos; melhor coreografia, para a diretora da Cia. e coreógrafa Sônia Mota; melhor bailarina, para Carolina Moreira Alves e melhor bailarino, para Cristiano Reis. Você é uma das grandes responsáveis por essas indicações. Qual o peso desse prêmio em sua carreira e como se sente diante dessa situação?
É um prazer saber que a Cia. foi indicada em quatro categorias. Sobre o peso dessas indicações, não considero que seja tanto assim. Não fico correndo atrás de reconhecimento, mas é claro que esse reconhecimento neste momento da minha entrada na Cia. é de grande importância. Isso prova que o trabalho que fiz está batendo com as novas diretrizes do grupo e com o trabalho que ele quer seguir.
2) 22 segredos foi seu primeiro trabalho junto à Cia. de Dança Palácio das Artes e através do resultado foi possível perceber que existiu uma grande sintonia entre diretora e grupo. Gostaria que você falasse um pouco sobre esse processo que transcende a criação artística e atinge a relação humana...
Foi mágico, um encontro de momentos. A Cia. vem trabalhando com esse perfil de bailarino–criador–intérprete por 10 anos. Paralelamente, eu também estava há 20 anos na Alemanha pesquisando e trabalhando.
O Brasil é um país novo, cheio de sonhos e ilusões, um país que vai aprendendo aos trancos e barrancos. Eu mesma fui para a Europa no impulso, na emotividade, e a Alemanha me ensinou a sistematizar, a me basear em fatos da história. Lá eu fui confrontada com perguntas do tipo de onde venho, pra onde vou, o que eu quero. Aqui no Brasil, a gente vai fazendo a coisa no impulso. Na Alemanha, percebi que eu não era tão emancipada como pensava, vi o quanto era carente, o quanto desconhecia a minha própría história. Me vi criança e adolescente, mesmo estando com 40 anos. Isso é positivo por um lado e por outro atravanca o processo de amadurecimento. Já há algum tempo eu estava querendo praticar esse amadurecimento que tive na Alemanha aqui no Brasil, porque aqui tudo é motivado pela paixão. Eu tenho uma filosofia de vida de que quando a paixão é exagerada, ela atrapalha. A gente precisa ter um grande grau de razão, saber por que estamos fazendo isso ou aquilo. É preciso estar consciente. A Cia. de Dança também vinha nesse processo de querer amadurecer e dar esse passo de assumir sua própria identidade, e isso bateu comigo porque eu também queria descobrir qual é minha identidade. Nunca fui diretora e a possibilidade de trabalhar aqui, de estar diante de um grupo, me dá a chance de aplicar minha experiência. Então, o processo de criação de 22 segredos foi o encontro de duas “forças“ que buscavam a mesma coisa.
3) Fale um pouco mais sobre esta linha de bailarino-criador-intérprete que a Cia. de Dança do Palácio segue...
Acho que o grande diferencial desta companhia em relação às outras companhias oficiais do Brasil é que todas as outras têm um compromisso com a juventude e com o repertório, e esse repertório tem que estar de acordo com a expectativa do público. Raramente uma companhia oficial se permite experimentar um novo caminho. E se a direção do Palácio das Artes concorda em investir nessa direção acho que somos uma das primeiras a fazer isso. O compromisso de rebeldia, de ir além da zona de conforto, pertence mais à cena livre e aos artistas independentes. As companhias oficiais ficam dentro do padrão mais comportado, inovador às vezes, mas comportado. Defendo muito o fato de que a média de idade dos bailarinos da Cia. seja de 40 anos. Acho isso fantástico, porque não existe nenhuma companhia de dança com essa média de idade. Acredito que o bailarino só pode ser um intérprete-criador quando já tem uma certa experiência de vida. Quando você é jovem, você arrisca no experimento quase de forma inconsciente. No caso da Cia. é um experimento consciente a forma com que cada bailarino assume seu corpo agora.
4) O que foi mais marcante durante os ensaios do espetáculo 22 segredos pra você?
Tiveram vários momentos fortes, mas o mais forte foi o “vai ou racha“, o momento de assumir idéias e sentimentos. Houve muita confiança nos momentos de troca emocional entre os bailarinos e eu.
5) Como surgiu o convite para ser a nova diretora da Cia.?
Foi tudo muito rápido, o convite foi feito no começo de janeiro e eu tive 15 dias para dar a resposta. Eu estava na Alemanha e isso não me passava pela cabeça. O que me fez decidir foi a vontade de aplicar no Brasil a minha experiência de mais de 40 anos de dança. Aceitei, e pra isso abdiquei do meu trabalho na Alemanha. Fiz isso com certa dor, mas acho que era o momento, penso que devo isso ao meu país. Sempre fui muito bem recebida aqui e agora acho que posso devolver isso.
6) A partir da cumplicidade e respeito que já foi estabelecida entre vocês (Sônia Mota e bailarinos da Cia.), queria saber o que você espera da Cia. de Dança Palácio das Artes durante sua gestão enquanto diretora da Companhia.
Espero que eles sigam comigo neste compromisso com a verdade, e que se assumam como são, dançando dentro da forma que seus corpos e seus espíritos desejam, assim como foi em 22 segredos.
7) Quais são suas expectativas em relação a esse novo trabalho?
Pode parecer pretensioso, mas estou tranquila, vou fazendo passo a passo. Não estou pensando no futuro, quero ir de hoje de tarde para hoje de noite, de hoje de noite para amanha cedo. Estou pensando no agora.
8) Quais são seus planos para a Cia. de Dança Palácio das Artes neste ano de 2010? Você já tem algum projeto em vista?
Quero manter o perfil que a Cia. adquiriu, mas dar um passo à frente, assumindo a auto-criação. Paralelamente faremos uma homenagem aos 40 anos da Fundação, compondo com os bailarinos um programa que aborde esse tema. A outra hipótese é trabalhar com o tema das diferentes gerações, que faz parte da minha trilogia sobre o feminino. Acho que tem a ver com o momento que a gente vive, essa coisa da avó, mãe e filha. A sociedade necessita, hoje, de um diálogo entre o tradicional e o atual, o diálogo precisa existir, e, dentro do tema geração, falo exatamente do diálogo, de como um filho conversa com um pai, o modo como um corpo mais jovem conversa com um corpo maduro.
Sônia Mota nasceu em São Paulo, formou-se aos 16 anos em Ballet Clássico e mais tarde se especializou em dança moderna. Na sua trajetória recebeu vários prêmios como melhor bailarina e coreógrafa. Dirigiu o espetáculo 22 segredos, que foi indicado ao prêmio SESC / SATED - 2010 em quatro categorias. Depois de morar um bom tempo na Alemanha, Sônia Mota retorna ao Brasil e agora assume o posto de Diretora da Cia. de Dança do Palácio das Artes.
Por: Yany Mabel
1) Na 15ª edição do Prêmio SESC / SATED, a Cia. de Dança Palácio das Artes concorreu em quatro categorias: melhor espetáculo, com 22 segredos; melhor coreografia, para a diretora da Cia. e coreógrafa Sônia Mota; melhor bailarina, para Carolina Moreira Alves e melhor bailarino, para Cristiano Reis. Você é uma das grandes responsáveis por essas indicações. Qual o peso desse prêmio em sua carreira e como se sente diante dessa situação?
É um prazer saber que a Cia. foi indicada em quatro categorias. Sobre o peso dessas indicações, não considero que seja tanto assim. Não fico correndo atrás de reconhecimento, mas é claro que esse reconhecimento neste momento da minha entrada na Cia. é de grande importância. Isso prova que o trabalho que fiz está batendo com as novas diretrizes do grupo e com o trabalho que ele quer seguir.
2) 22 segredos foi seu primeiro trabalho junto à Cia. de Dança Palácio das Artes e através do resultado foi possível perceber que existiu uma grande sintonia entre diretora e grupo. Gostaria que você falasse um pouco sobre esse processo que transcende a criação artística e atinge a relação humana...
Foi mágico, um encontro de momentos. A Cia. vem trabalhando com esse perfil de bailarino–criador–intérprete por 10 anos. Paralelamente, eu também estava há 20 anos na Alemanha pesquisando e trabalhando.
O Brasil é um país novo, cheio de sonhos e ilusões, um país que vai aprendendo aos trancos e barrancos. Eu mesma fui para a Europa no impulso, na emotividade, e a Alemanha me ensinou a sistematizar, a me basear em fatos da história. Lá eu fui confrontada com perguntas do tipo de onde venho, pra onde vou, o que eu quero. Aqui no Brasil, a gente vai fazendo a coisa no impulso. Na Alemanha, percebi que eu não era tão emancipada como pensava, vi o quanto era carente, o quanto desconhecia a minha própría história. Me vi criança e adolescente, mesmo estando com 40 anos. Isso é positivo por um lado e por outro atravanca o processo de amadurecimento. Já há algum tempo eu estava querendo praticar esse amadurecimento que tive na Alemanha aqui no Brasil, porque aqui tudo é motivado pela paixão. Eu tenho uma filosofia de vida de que quando a paixão é exagerada, ela atrapalha. A gente precisa ter um grande grau de razão, saber por que estamos fazendo isso ou aquilo. É preciso estar consciente. A Cia. de Dança também vinha nesse processo de querer amadurecer e dar esse passo de assumir sua própria identidade, e isso bateu comigo porque eu também queria descobrir qual é minha identidade. Nunca fui diretora e a possibilidade de trabalhar aqui, de estar diante de um grupo, me dá a chance de aplicar minha experiência. Então, o processo de criação de 22 segredos foi o encontro de duas “forças“ que buscavam a mesma coisa.
3) Fale um pouco mais sobre esta linha de bailarino-criador-intérprete que a Cia. de Dança do Palácio segue...
Acho que o grande diferencial desta companhia em relação às outras companhias oficiais do Brasil é que todas as outras têm um compromisso com a juventude e com o repertório, e esse repertório tem que estar de acordo com a expectativa do público. Raramente uma companhia oficial se permite experimentar um novo caminho. E se a direção do Palácio das Artes concorda em investir nessa direção acho que somos uma das primeiras a fazer isso. O compromisso de rebeldia, de ir além da zona de conforto, pertence mais à cena livre e aos artistas independentes. As companhias oficiais ficam dentro do padrão mais comportado, inovador às vezes, mas comportado. Defendo muito o fato de que a média de idade dos bailarinos da Cia. seja de 40 anos. Acho isso fantástico, porque não existe nenhuma companhia de dança com essa média de idade. Acredito que o bailarino só pode ser um intérprete-criador quando já tem uma certa experiência de vida. Quando você é jovem, você arrisca no experimento quase de forma inconsciente. No caso da Cia. é um experimento consciente a forma com que cada bailarino assume seu corpo agora.
4) O que foi mais marcante durante os ensaios do espetáculo 22 segredos pra você?
Tiveram vários momentos fortes, mas o mais forte foi o “vai ou racha“, o momento de assumir idéias e sentimentos. Houve muita confiança nos momentos de troca emocional entre os bailarinos e eu.
5) Como surgiu o convite para ser a nova diretora da Cia.?
Foi tudo muito rápido, o convite foi feito no começo de janeiro e eu tive 15 dias para dar a resposta. Eu estava na Alemanha e isso não me passava pela cabeça. O que me fez decidir foi a vontade de aplicar no Brasil a minha experiência de mais de 40 anos de dança. Aceitei, e pra isso abdiquei do meu trabalho na Alemanha. Fiz isso com certa dor, mas acho que era o momento, penso que devo isso ao meu país. Sempre fui muito bem recebida aqui e agora acho que posso devolver isso.
6) A partir da cumplicidade e respeito que já foi estabelecida entre vocês (Sônia Mota e bailarinos da Cia.), queria saber o que você espera da Cia. de Dança Palácio das Artes durante sua gestão enquanto diretora da Companhia.
Espero que eles sigam comigo neste compromisso com a verdade, e que se assumam como são, dançando dentro da forma que seus corpos e seus espíritos desejam, assim como foi em 22 segredos.
7) Quais são suas expectativas em relação a esse novo trabalho?
Pode parecer pretensioso, mas estou tranquila, vou fazendo passo a passo. Não estou pensando no futuro, quero ir de hoje de tarde para hoje de noite, de hoje de noite para amanha cedo. Estou pensando no agora.
8) Quais são seus planos para a Cia. de Dança Palácio das Artes neste ano de 2010? Você já tem algum projeto em vista?
Quero manter o perfil que a Cia. adquiriu, mas dar um passo à frente, assumindo a auto-criação. Paralelamente faremos uma homenagem aos 40 anos da Fundação, compondo com os bailarinos um programa que aborde esse tema. A outra hipótese é trabalhar com o tema das diferentes gerações, que faz parte da minha trilogia sobre o feminino. Acho que tem a ver com o momento que a gente vive, essa coisa da avó, mãe e filha. A sociedade necessita, hoje, de um diálogo entre o tradicional e o atual, o diálogo precisa existir, e, dentro do tema geração, falo exatamente do diálogo, de como um filho conversa com um pai, o modo como um corpo mais jovem conversa com um corpo maduro.
















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