5.7.11
Codel em POA
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Ocultar detalhes DE:Andrea Faria PARA:paulo Chamone Mensagem sinalizada Segunda-feira, 4 de Julho de 2011 23:10Corpo da mensagemCha, posta pra nós no blog o comentário do Cordel em Poa. O link é este http://relatomendonca.tumblr.com/
O abraço que vem do Interior
Confira o comentário de “Coreografia de Cordel”, atração do final de semana no Theatro São Pedro. A partir de amanhã, a programação do Festival do Teatro Brasileiro prossegue com “Cortiços”, no palco do Teatro Renascença, criação do grupo mineiro Luna Lunera. O FTB etapa RS tem patrocínio da Petrobras e copatrocínio da Caixa. Consulte a programação completa do festival no site da Liga www.liga.art.br e siga pelo twitter @ftb_rs.
Na quinta e sexta-feira, o Galpão conduziu a plateia gaúcha em uma jornada dentro de si mesma, guiada pelo comovente “Tio Vânia” (confira comentário abaixo). No final de semana, foi a vez de a Cia. de Dança Palácio das Artes propor uma viagem diferente. Se o “Tio Vânia” do Galpão é uma montagem que evita ousar maiores experimentalismos formais, “Coreografia de Cordel” bate pé no campo do pós-dramático, sapateia em cima da narrativa linear e dá de mão na quarta parede.
“Coreografia de Cordel”, que estreou em 2003, é um dos espetáculos mais importantes da Cia. de Dança Palácio das Artes. O ponto de partida vem de convivências que o grupo mineiro teve com comunidades do Interior, especialmente Medina. A escolha foi radical: Medina tem pouco mais de 20 mil habitantes, é uma das tantas cidades do empobrecido Vale do Jequitinhonha, classificada pela Unesco como uma das regiões mais carentes do Mundo. Apartada das benesses capitalistas, Medina ofereceu ao coreógrafo Tuca Pinheiro a oportunidade de colocar em contato a sofisticação da dança contemporânea e a ingenuidade de uma cultura ainda não moldada pelo consumismo.
O mérito de “Coreografia de Cordel” é não seguir a rota confortável de adotar a cultura popular como coitadinha, algo a ser amparado, preservado e defendido. A atitude é a de reconhecer a dificuldade de abraçar essa cultura (o gesto de abraçar, inclusive, é o fecho do espetáculo). Renunciando ao paternalismo, os artistas se deixaram impressionar pelo que viram, ouviram e sentiram, incorporando ainda ao espetáculo o que lhes ficou de saudade do sertão. Este conflito desaguou em uma encenação pós-dramática, que provoca o público permanentemente a descobrir nexo, no que está em cena, constrangido a desenhar em tempo real um mapa do que está assistindo. E não deve ter sido isso que a Cia. de Dança Palácio das Artes sentiu ao entrar em contato com a terra estranha de Medina?
Uma das imagens mais marcantes é justamente uma bailarina de olhos vendados, zanzando no palco: materializando uma cabra-cega estética, ela expressa a impotência do olhar e dos ouvidos urbanos em contato com uma sociedade que nos parece estrangeira em seus gestos contidos, na sua profusa oralidade, na moralidade restritiva. As coreografias vão se desdobrando como em um mostruário de cordel – enfileiradas, consecutivas, aparentemente descosturadas, sutilmente tecendo um retrato amoroso de um conflito. A conformação do espaço cênico – colocando arquibancadas no fundo do palco do Theatro São Pedro – parece um esforço de reproduzir uma das imagens mais marcantes de qualquer cidadezinha do Interior que se preza: a rua principal, onde desfilam os personagens, os carros, as vergonhas e as maravilhas do lugar.
Sucedem-se coreografias, algumas de impressionante técnica. Nos momentos de vínculo mais estreito com Medina, os bailarinos impõem a seus corpos o maneirismo dos animais, outras vezes se explicita a repressão sexual. Também há solos mais coxudos, caracterizando praticamente uma cena, com o bailarino aliando texto e gesto. Outra originalidade de “Coreografia de Cordel” é assumir a oralidade: um microfone ao lado do palco serve de púlpito para os bailarinos. Em alguns momentos, um dos bailarinos articula um discurso quase incompreensível como trilha sonora para a dança, exaltando a musicalidade de um palavrório que parece não dizer nada, mas significa tudo, significa que estamos imersos numa cultura fechada, que se basta, que prefere o círculo ao avanço, que tem medo de abrir a porta (porta que, sintomaticamente, é um dos poucos elementos em cena). O grupo se encarrega ainda de fazer um mea culpa pela invasão que impôs a Medina, explicitando a violência dessa aproximação quando um dos bailarinos “bate” fotos do público, com um flash impertinente.
O grupo é consciente de sua coragem estética e brinca abertamente com o público sobre a dificuldade em uma abordagem mais confortável do retrato multifacetado e aparentemente desconexo que está em cena. No final, sim, é permitida a facilidade da emoção direta e facilmente reconhecível. No escuro, ouve-se Jair Rodrigues cantar os versos da moda de viola “Disparada” (de Theo de Barros e Geraldo Vandré) “Eu venho lá do sertão / E posso não lhe agradar” e “Não canto para lhe enganar”. Como se para deixar ainda mais clara a colisão entre urbano e interiorano, sucedem-se momentos em que o palco é iluminado ora por lanternas de luz azul e fria, ora por focos de luz amarelos como velas ou bicos de luz perdidos numa estradinha erma.
Mas tudo termina em abraços, primeiro entre o elenco, depois entre artistas e público. A Cia. tem a humildade de confessar que a principal lição que aprendeu na expedição a Medina foi a de que o gesto mais fundamental a unir Brasis absolutamente diversos deve ser um simples aperto de mão, um abraço, a expressão física da disponibilidade. Não há sentido em glamourizar o popular – limitemo-nos a reconhecer e respeitar o que nos é alheio, permitamo-nos tão-somente deixar-nos transformar. Uma estratégia que o grupo coloca claramente em cena, ao pendurar 42 panelas acima do palco, e fazer filtrar a luz através dela. O que está em cena não é o rural apropriado pelo urbano, são os indivíduos artistas banhados pelo que experimentaram.
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Ocultar detalhes DE:Andrea Faria PARA:paulo Chamone Mensagem sinalizada Segunda-feira, 4 de Julho de 2011 23:10Corpo da mensagemCha, posta pra nós no blog o comentário do Cordel em Poa. O link é este http://relatomendonca.tumblr.com/
O abraço que vem do Interior
Confira o comentário de “Coreografia de Cordel”, atração do final de semana no Theatro São Pedro. A partir de amanhã, a programação do Festival do Teatro Brasileiro prossegue com “Cortiços”, no palco do Teatro Renascença, criação do grupo mineiro Luna Lunera. O FTB etapa RS tem patrocínio da Petrobras e copatrocínio da Caixa. Consulte a programação completa do festival no site da Liga www.liga.art.br e siga pelo twitter @ftb_rs.
Na quinta e sexta-feira, o Galpão conduziu a plateia gaúcha em uma jornada dentro de si mesma, guiada pelo comovente “Tio Vânia” (confira comentário abaixo). No final de semana, foi a vez de a Cia. de Dança Palácio das Artes propor uma viagem diferente. Se o “Tio Vânia” do Galpão é uma montagem que evita ousar maiores experimentalismos formais, “Coreografia de Cordel” bate pé no campo do pós-dramático, sapateia em cima da narrativa linear e dá de mão na quarta parede.
“Coreografia de Cordel”, que estreou em 2003, é um dos espetáculos mais importantes da Cia. de Dança Palácio das Artes. O ponto de partida vem de convivências que o grupo mineiro teve com comunidades do Interior, especialmente Medina. A escolha foi radical: Medina tem pouco mais de 20 mil habitantes, é uma das tantas cidades do empobrecido Vale do Jequitinhonha, classificada pela Unesco como uma das regiões mais carentes do Mundo. Apartada das benesses capitalistas, Medina ofereceu ao coreógrafo Tuca Pinheiro a oportunidade de colocar em contato a sofisticação da dança contemporânea e a ingenuidade de uma cultura ainda não moldada pelo consumismo.
O mérito de “Coreografia de Cordel” é não seguir a rota confortável de adotar a cultura popular como coitadinha, algo a ser amparado, preservado e defendido. A atitude é a de reconhecer a dificuldade de abraçar essa cultura (o gesto de abraçar, inclusive, é o fecho do espetáculo). Renunciando ao paternalismo, os artistas se deixaram impressionar pelo que viram, ouviram e sentiram, incorporando ainda ao espetáculo o que lhes ficou de saudade do sertão. Este conflito desaguou em uma encenação pós-dramática, que provoca o público permanentemente a descobrir nexo, no que está em cena, constrangido a desenhar em tempo real um mapa do que está assistindo. E não deve ter sido isso que a Cia. de Dança Palácio das Artes sentiu ao entrar em contato com a terra estranha de Medina?
Uma das imagens mais marcantes é justamente uma bailarina de olhos vendados, zanzando no palco: materializando uma cabra-cega estética, ela expressa a impotência do olhar e dos ouvidos urbanos em contato com uma sociedade que nos parece estrangeira em seus gestos contidos, na sua profusa oralidade, na moralidade restritiva. As coreografias vão se desdobrando como em um mostruário de cordel – enfileiradas, consecutivas, aparentemente descosturadas, sutilmente tecendo um retrato amoroso de um conflito. A conformação do espaço cênico – colocando arquibancadas no fundo do palco do Theatro São Pedro – parece um esforço de reproduzir uma das imagens mais marcantes de qualquer cidadezinha do Interior que se preza: a rua principal, onde desfilam os personagens, os carros, as vergonhas e as maravilhas do lugar.
Sucedem-se coreografias, algumas de impressionante técnica. Nos momentos de vínculo mais estreito com Medina, os bailarinos impõem a seus corpos o maneirismo dos animais, outras vezes se explicita a repressão sexual. Também há solos mais coxudos, caracterizando praticamente uma cena, com o bailarino aliando texto e gesto. Outra originalidade de “Coreografia de Cordel” é assumir a oralidade: um microfone ao lado do palco serve de púlpito para os bailarinos. Em alguns momentos, um dos bailarinos articula um discurso quase incompreensível como trilha sonora para a dança, exaltando a musicalidade de um palavrório que parece não dizer nada, mas significa tudo, significa que estamos imersos numa cultura fechada, que se basta, que prefere o círculo ao avanço, que tem medo de abrir a porta (porta que, sintomaticamente, é um dos poucos elementos em cena). O grupo se encarrega ainda de fazer um mea culpa pela invasão que impôs a Medina, explicitando a violência dessa aproximação quando um dos bailarinos “bate” fotos do público, com um flash impertinente.
O grupo é consciente de sua coragem estética e brinca abertamente com o público sobre a dificuldade em uma abordagem mais confortável do retrato multifacetado e aparentemente desconexo que está em cena. No final, sim, é permitida a facilidade da emoção direta e facilmente reconhecível. No escuro, ouve-se Jair Rodrigues cantar os versos da moda de viola “Disparada” (de Theo de Barros e Geraldo Vandré) “Eu venho lá do sertão / E posso não lhe agradar” e “Não canto para lhe enganar”. Como se para deixar ainda mais clara a colisão entre urbano e interiorano, sucedem-se momentos em que o palco é iluminado ora por lanternas de luz azul e fria, ora por focos de luz amarelos como velas ou bicos de luz perdidos numa estradinha erma.
Mas tudo termina em abraços, primeiro entre o elenco, depois entre artistas e público. A Cia. tem a humildade de confessar que a principal lição que aprendeu na expedição a Medina foi a de que o gesto mais fundamental a unir Brasis absolutamente diversos deve ser um simples aperto de mão, um abraço, a expressão física da disponibilidade. Não há sentido em glamourizar o popular – limitemo-nos a reconhecer e respeitar o que nos é alheio, permitamo-nos tão-somente deixar-nos transformar. Uma estratégia que o grupo coloca claramente em cena, ao pendurar 42 panelas acima do palco, e fazer filtrar a luz através dela. O que está em cena não é o rural apropriado pelo urbano, são os indivíduos artistas banhados pelo que experimentaram.
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